O que podemos aprender com o budismo enquanto surfamos?

Acredito que você já ouviu falar em “Surfista de Cristo”, mas acho que ninguém ouviu falar em “Surfista de Buda”. Até agora! Brincadeiras à parte, acredito que essa união do surf com a espiritualidade, seja com qualquer caminho espiritual, é muito interessante. Vejo muita ligação entre o ato de surfar e o ato de se conectar com seu “Eu maior”. Foi assim que entrei nessa onda do budismo.

Aprendi a surfar com 12 anos, mas precisei de um pouco mais de tempo para aprender a me conhecer. Logo minha busca pelas ondas se transformou também em uma busca pelo autoconhecimento. Os livros foram as primeiras coisas que me apareceram nessa trilha, depois a meditação, controle da respiração, yoga e aos pouco fui seguindo essa onda.

Sabendo o quanto é difícil começar a surfar sozinho, percebi que seria até mais difícil trilhar esse caminho espiritual sozinho. Comecei a estudar mais profundamente as religiões e qualquer coisa ligada a espiritualidade. Passei por vários centros, igrejas, templos, terreiros… em busca de algo que saciasse essa minha sede de transcendência.

Sei que essa busca nunca acaba, pois a imensidão do universo não permite tal coisa, mas confesso que nessa busca, o budismo se encaixou de uma forma que nenhuma outra ideia, filosofia ou religião tinha se encaixado para mim. Hoje sinto-me muito bem alimentado por tudo que os ensinamentos budistas me trazem, porém uma das primeiras coisas que aprendemos com o Buda, é sobre a impermanência das coisas. Então, onde que essa busca quiser me levar, que me leve.

SURFANDO COM O BUDISMO

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Sempre vi o surf como forma de meditação e autoconhecimento. Adorava surfar sozinho e ficar naquele meu momento de introspecção: Eu, minha prancha e o mar. Assim quem me aprofundei na filosofia budista pude ver de forma mais clara como o surf, a meditação e o budismo se cruzavam na minha forma de enxergar o mundo.

Quando iniciamos no caminho budista tibetano, na maioria das vezes somos apresentados as práticas preliminares que dará o sustento a todo seu caminho no budismo. Nessas práticas somos convidados a contemplar “Os quatros pensamentos que transformam a mente.” Esses pensamentos abordam: A vida humana preciosa, Impermanência, Lei de causa e feito (Karma) e o Sofrimento no Samsara (Mais info sobre Samsara clique aqui).

O mar para mim sempre foi uma grande metáfora da vida. Utilizando dele como apoio junto com o surf, ficou fácil para mim contemplar, entender e aplicar na minha vida os quatros pensamentos que transformam a mente. Vou tentar mostrar minha visão de dentro d’água sobre isso.

VIDA HUMANA PRECIOSA (Corpo humano precioso)

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No budismo acredita-se que reencarnar na forma humana é algo extremamente raro. Conta-se que a chance disso acontecer é a mesma que uma tartaruga que sobe a superfície da água apenas uma vez a cada 100 anos para respirar, e quando sobe ela coloca por acaso a cabeça dentro um pequeno aro de borracha que está flutuando na imensidão do oceano. Dá para perceber o quanto isso é raro?

No surf aprendemos a valorizar o tempo dentro d’água. O vento e o mar podem mudar em segundos e estragar toda as condições das ondas, se você não tirar o melhor proveito disso, pode não ter outra oportunidade.

Sem falar que as ondas se formam a milhares de quilômetros de onde podemos surfa-las. Imagine que nesse exato momento uma onda perfeita está se formando no meio do oceano. Ela irá atravessar o oceano por dias ou semanas, e eu em algum dia acordarei às 5 da manhã, pegarei minha prancha e irei ao encontro dela. Percebe a raridade dessa sincronicidade? Muita coisa teve que se encaixar perfeitamente para que eu pudesse surfa-la.

Outra coisa menos filosófica que aprendemos no surf, está em relação ao cuidado com o corpo. A atividade do surf exige muito de nosso corpo e caso você venha maltratando esse corpo precioso que a vida te deu, não aguentará surfar por muito tempo. É como se o próprio surf e o mar estivessem selecionando quem está valorizando esse presente.

IMPERMANÊNCIA

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No budismo aprendemos a contemplar que as coisas são impermanentes, tudo está em constante mudança. A cada minuto nosso corpo muda de células e dentro de 7 anos trocamos todas as células do nosso corpo.

Nada mais impermanente e precioso do que uma onda. Passamos vários minutos e até horas remando pra lá e pra cá dentro d’água para surfar uma onda que levará em média de 5 segundos. Essa metáfora é muito usual para a vida, principalmente quando percebemos que tanto as ondas boas quanto as ondas ruins irão passar.

A vida e as coisas que ela nos traz são como uma onda e não dá para se agarrar a ela. Ela vai se desfazer. Porém, podemos surfar essa onda e como você irá surfa-la é que é a questão. Seja um relacionamento, um trabalho, uma viagem uma hora irá acabar e assim como onda o que contará é como você realmente viveu isso e adquiriu experiência para uma próxima onda.

No mundo de impermanência a única constante é a mudança.

LEI DE CAUSA E EFEITO (Karma)

O karma nos segue como uma sombra. Às vezes por um pássaro voar tão alto, achamos que ele não tem sombra, mas ela está lá.

O karma nos segue como uma sombra. Às vezes por um pássaro voar tão alto, achamos que ele não tem sombra, vendo ou não ela está lá.

Vivemos no mundo em que causa e efeito nos regem, mas mesmo sabendo disso vivemos de modo alheio a isso. O budismo nos leva a contemplar que cada ação existe uma reação e que essas reações nos seguirá como uma sombra onde quer que nós estejamos.

Imagine que você está dentro de uma floresta totalmente sem roupa. Será que você conseguiria caminhar pela floresta e sair sem nenhum arranhão? Para isso você teria que estar completamente atento, completamente presente a cada passo para não pisar em falso e poder abrir espaço para que os galhos não te machuquem.

Apesar de saber que se não estivermos atento a cada passo iremos nos arranhar dentro dessa floresta, passamos distraídos e seguimos vivendo nos machucando em quase todo caminho.

No surf não é uma floresta, mas o mar. Você tem que estar atento a cada mudança da onda, seja surfando ou apenas para se livrar dela. Uma decisão errada pode te fazer perder todo fluxo que vinha construindo na onda ou te jogar para uma zona perigosa do mar. Assim como na vida, o surf não tem como voltar atrás e caso caia da prancha terá que aguentar um tempo em baixo d’água. Então, é melhor contemplar as causas e os efeitos de cada ato, e ficar bem presente a cada movimento.

SOFRIMENTO NO SAMSARA

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“O Samsara depende do karma. O Karma depende do apego. O apego é devido a ignorância interna e externa.”

Essa é uma das citações que somos levados a contemplar no budismo. Entenda karma nesse caso como “padrões de hábitos” que você desenvolve devido a certo apego por alguma coisa. Como você saliva diante de certa comida que você gosta. Seu cérebro desenvolveu uma relação kármica com aquela comida, que assim que você a vê, reage de tal forma.

No surf e na vida jogamos nossas projeções mentais de quais condições deveriam estar o mar ou mundo. Devido a esse apego a essas certas condições que entramos no dualismo do “gosto” ou “não gosto”. Dessa forma fica inevitável que criemos uma ligação com o sofrimento, pois nossa satisfação está ligada a algo totalmente externo a nós, da qual não temos o mínimo controle.

Nos fixamos a uma identidade que cria listas do que é bom ou do que não é para essa identidade, e assim que qualquer item não case com a lista, caímos em sofrimento.

No surf temos uma frase que diz que “O melhor surfista é o que mais se diverte.” Na vida isso quer dizer que, vive melhor quem consegue dançar entre os acontecimentos e consegue deixar a vida fluir sem criar expectativas. Reclamar das condições do mar não irá modificar em nada a situação. Se adaptar a ele sim.

Então, seja em uma condição de mar (vida) ruim ou boa, ficar acima dessa ilusão do Samsara, tentando reduzir esse ego que gosta ou não gosta das coisas e que se apega a esse gosto, gerando mais karma (padrões de hábito), poderá ajudar muito a simplesmente surfar e curtir cada onda que a vida nos traz.

Essa é a minha visão sobre o budismo com pitadinha de água salgada. De dentro d’água essa visão me faz muito sentido e tento aplica-la a meu surf e a minha vida sempre que posso. Espero que vocês tenham conseguido surfar essa onda que tentei descrever aqui.

Até a próxima onda ou matéria. Aloha!!

Por Danillo Spíndola.


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