Como identificar um iluminado

Você seria capaz de reconhecer um iluminado caso se deparasse com um ? Já pensou que pode haver iluminados próximos a você, talvez, na mesma rua, bairro, cidade ou país? Mas, como reconhecê-los? Existe algum “critério infalível” que permita reconhecê-los? Será que os autointitulados iluminados o são realmente? Será que todos os iluminados tem grandes missões no mundo assim como Buda, Cristo e outros mais? Vamos analisar estas questões?

Primeiramente, é importante definir o que se entende por “Iluminado”. Iluminado. é aquele indivíduo liberto de todas ilusões que geram o sofrimento. É a pessoa que sabe diferenciar o que é verdadeiro do que é falso, que “despertou”, livrou-se do sono da ignorância e ilusão . É aquele que acordou para a Verdade e não vive mais de enganos, ou mentiras. Alguém liberto da dor psicológica e do desejo de ser, não ser, ou vir-a-ser. Vive na Eternidade, na dimensão do Desconhecido, do Atemporal, além das limitações do pensamento e da prisão do EGO.

A imagem que geralmente se tem de um iluminado é a de uma pessoa desapegada, calma, serena- às vezes até indiferente às dores do mundo. Alguém que atingiu a perfeição e que venceu os vícios e fraquezas humanas. Mas, pode ser que o Iluminado não se encaixe em nenhuma das nossas classificações mentais ou convenções sociais. Na verdade, tudo isso são imagens estereotipadas, criadas por nossos desejos e idealizações. Estas imagens, podem ser fantasiosas e , em alguns casos, podem não corresponder à realidade.

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Começando por Jesus Cristo, percebe-se que ele era, aparentemente, uma pessoa absolutamente comum. Seria muito difícil- para não dizer impossível- que alguém conseguisse identificá-lo como um grande Avatar. Não havia sinais externos. A Bíblia nos informa que “nem mesmo seus irmãos criam nele” (João 7:5 ) .Ou seja, nem mesmo as pessoas mais íntimas , que conviveram com ele, viram algum sinal que o identificasse como um ser superior. Além disso, Jesus vivenciou em sua vida terrena, muitas características humanas consideradas “imperfeitas” tais como raiva, tristeza, solidão, dor, sede, fome, angústia etc. Enfim, dificilmente Jesus se encaixaria em qualquer imagem estereotipada do iluminado tradicional.

Sidarta Gautama – o Buda- talvez seja o iluminado que mais se aproxima de sua própria imagem mítica. Isso se deve, provavelmente, por sua postura meditativa e serena . Todavia, há uma resistência à ideia de que Buda poderia ter manifestado quaisquer defeitos humanos – após seu despertar. Como se em um simples click, ele tivesse se tornado um ser “perfeito”. Essa noção fortalece o mito – que muito interessa às religiões organizadas- de que seus mestres e fundadores eram divinos. Afinal, não se coloca fé no que é humano, mas apenas no que é celestial.

buda-iluminadoMas, obviamente o mito não é o real. Buda era uma pessoa comum e não deixou de sê-lo após sua iluminação. Muita gente tenta torná-lo uma espécie de deus, mas ele mesmo se afirmava tão humano quanto qualquer outro. Ou tão divino quanto todos os seres humanos. A diferença talvez esteja no grau de consciência acerca desta verdade. Considerar Sidarta um ser além de todos os defeitos humanos é destruir o cerne do seu próprio ensinamento : provar que todas as pessoas são budas em potencial . Se ninguém pode se tornar o que ele se tornou, nem alcançar o que ele alcançou então qual é o sentido de sua vida ? Mas se já todos já são “budas” em potencial então tudo muda. Mas esta ideia não parece agradar às igrejas, nem às organizações religiosas. Se todos já são ” budas”, por que haverão de ir às igrejas? Por que haverão de seguir os monges, padres e os lamas? Talvez porque seguir seja mais fácil do que “descobrir” por si mesmo. Muitos se refugiam na imagem estereotipada do salvador como forma de amenizar a dor, alcançar uma graça ou resolver algum problema. Mas Buda ensinou que o refúgio está dentro de cada um de nós. E que a libertação não está nas religiões, nem nos livros, nem nas orações, nem nos gurus, mas na compreensão da Verdade acerca da vida e de si mesmo.

O fato é que não existem elementos suficientes para analisar a exatidão de tudo o que se diz sobre Jesus e Buda. Muitos creem baseado apenas na autoridade das religiões e tradições . Mas o próprio Buda alertou contra a fé cega. Ensinou que ninguém deveria crer em algo baseado apenas na fé das tradições, nem no testemunho de sábios antigos, nem em coisa alguma só porque foi dita e repetida por muita gente. Ou seja, a crença deve ser considerada apenas como uma crença. E a verdade como verdade. E o fato é que não há como atestar se uma crença é verdadeira ou não. Do contrário, não seria crença. Mas, isso não significa que seja proibido fazer conjecturas, levantar hipóteses ou dar opiniões. Afinal, a crença é algo muito pessoal, íntimo e subjetivo.

Se não é possível analisar com profundidade os grandes iluminados do passado, resta-nos sondar a vida e a obra de iluminados contemporâneos. Alguns destes budas modernos, tiveram a vida, obra e atitudes amplamente registradas. Isso confere maior exatidão, possibilitando uma análise imparcial sobre mitos e verdades acerca dos mesmos.
Veja abaixo alguns mitos e verdades sobre os iluminados :

Todo iluminado é pobre 
Mito. Por definição o iluminado não tem apegos nem ao luxo nem à pobreza. Pode ser extremamente pobre como Ramakrishna e Ramana Maharshi. Pode levar uma vida modesta e confortável, de classe média, como Lahíri Mahasaya e Sri. Yuktéswar. Ou levar uma vida de classe média alta, como Krishnamurti. Este último, apesar de gostar de carros , morar em casas bonitas, usar roupas elegantes e frequentar bons restaurantes, dizia-se não considerar-se dono dessas coisas. Não andava com dinheiro e costumava dizer que tudo que precisava era um lugar para dormir, roupas para usar e comida para se alimentar.

O Iluminado não tem vícios, desejos, nem defeitos.

maharajMito. O vício está ligado ao corpo. Sri. Nisargadatta Maharaj fumava e comia carne – um hábito considerado pecado mortal pelos conservadores hindus. Krishnamurti, apesar de não ser hindu, era vegetariano, não fumava e não bebia. Todavia, seus desejos carnais o levou a um relacionamento amoroso com Rosalind Willians Raja Gopal- esposa de seu secretário particular. Isso foi revelado em um livro lançado pela filha de Raja Gopal , Radha Sloss “Lives in the Shadow With J. Krishnamurti”- ainda sem tradução para o português. Este fato não foi desmentido nem por sua biógrafa, Emily Lutiens, nem pelas Fundações que o representam. Não vejo isso como motivo de escândalo. Pelo contrário, fiquei satisfeito em saber sobre seus defeitos e deslizes o que lhe confere uma humanidade que o torna igual a nós.Saber que ele era humano e que apesar disso conseguiu a Libertação, serve de motivação para que cada um a busque também. Além disso, está coerente com seus ensinamentos, pois nunca pregou a castidade, nem a repressão ou controle dos desejos . K quebrou o mito do iluminado “infalível”, “celestial”, ou “moralmente perfeito”. É bom saber que eles também passam por um processo de desenvolvimento e maturação, como todo ser humano . Além do mais, K. nunca se arvorou em santo, ou casto ou qualquer outra coisa. Ele afirmava que não importava quem era o orador, e sim se o que ele ensinava era verdadeiro ou não.

ramak-e-sarada O iluminado deve levar uma vida casta e renunciada.
Mito. Lahiri Mahasaya era casado, pai de família e chegou a ter dois filhos. Trabalhava como contador para sustentar sua família e continuou casado até a morte. Ramakrishna também era casado com Sarada Devi.

O iluminado não tem emoções humanas, não hesita e não se abala com nada.
Falso. Conta-se que Sri Yukteswar chorou muito quando Yogananda viajou para a América. Jesus agonizou no jardim do Getsêmani, pedindo ao pai para afastar o cálice, símbolo de sua paixão e morte. É dito também que ele chorou sobre Jerusalém. Krishnamurti demonstrava com uma certa frequência, impaciência e irritação em público. E, mesmo Babaji- o cristo yogue da Índia- hesitou. Conta-se que ele manifestou o desejo de despojar-se de sua manifestação carnal e pediu a opinião de sua irmã Mataji, esta aconselhou-o a nunca deixar sua forma humana. E assim, ele prometeu fazê-lo – fato descrito no livro Autobiografia de um Yogue.

O iluminado sabe de tudo.
Outro grave erro. O iluminado sabe de tudo acerca das ilusões da mente , da libertação e da compreensão da Verdade. Mas, não sabe “tudo”. Certa vez Krishnamurti estava no Brasil e alguém da plateia perguntou-lhe acerca de seu próprio futuro. K. respondeu que não era adivinho. É importante compreender que o iluminado não tem a posse e controle de seus poderes.Talvez haja casos específico em que a intuição do iluminado se amplie fazendo-o perceber coisas extra-físicas. Mas, estes casos são raros. É preciso lembrar que nem mesmo Jesus se considerava dono de seus poderes. Tudo vinha do Pai, de acordo com suas próprias palavras.
babajiO iluminado tem poderes.
Em tese sim, mas nem sempre e não necessariamente. Na literatura budista não há um só caso de milagres atribuído a Buda. Nem por isso ele deixou de ser iluminado. Ramana também não fazia milagres. Jesus fez muitos milagres. Mas, entende-se que no caso dele, tinha a ver com a particularidade de sua missão. Krishnamurti tinha poderes de cura, mas raramente os usava e evitava comentar sobre isso. Vários de seus amigos e conhecidos mais próximos testemunharam casos de curas atribuídas a K. Diziam que, na juventude, ele lia cartas antes de serem abertas, percebia auras e ainda tinha poderes de telepatia. Lahiri Mahasaya fez vários milagres ao longo de sua vida, curou doenças graves, ressuscitou mortos, apareceu em dois lugares ao mesmo tempo e outros grandes feitos. Assim também, aconteceu com Sri Yukteswar. E Babaji é , em si mesmo, um grande milagre, pois se diz que ele é imortal e não há limites para os seus poderes. Tudo isso foi descrito por Yogananda no livro Autobiografia de um Yogue.

O iluminado não sonha .
Verdade. Por definição, o iluminado extinguiu a barreira entre o consciente e o inconsciente. Tudo nele é consciência, não havendo, pois, necessidade de sonhar. Em geral eles dormem pouco e vivem a maior parte do tempo em meditação. Krishnamurti descreve em seu diário que costumava “experimentar certos estados interiores ocorridos durante o sono” (DK-13). Lahiri Mahasaya dormia muito pouco, vivia quase que constantemente em samadhi ou consciência desperta.Ram Gopal Muzumdar não dormia, estava sempre “desperto em Deus”(AI)

Manifestação da Ananda ou Bem-aventurança.
Verdadeiro. Esse é um dos critérios mais convincentes sobre a iluminação: a manifestação da Ananda ou Êxtases. Grandes místicos cristãos, tais como Francisco de Assis e Tereza de Neumann, tiveram profundos êxtases místicos. Krishnamurti também. Em que difere os êxtases de K. de um santo cristão ou iogue hindu? Essencialmente em nada. A não ser em alguns elementos simbólicos da cultura e tradição nas quais estavam inseridos. Destarte, Francisco de Assis, por ser cristão, revivia a paixão de Cristo que se manifestou através das chagas. Assim também acontecia com Tereza de Neumann, a estigmatizada católica (AI-394).Um hindu provavelmente teria visões de Krishna ou algum outro avatar. Mas a profundidade e a intensidade dos êxtases eram muito parecidos – senão similares. Foi Sri. Yuktéswar quem revelou a importância deste critério na identificação do estado búdico . Yogananda perguntou-lhe quando ele -Yogananda- iria encontrar Deus, seu mestre respondeu: “Pode-se adquirir o poder de controlar o universo inteiro e, no entanto, descobrir que Deus se esquiva. O progresso espiritual não é medido pela exibição de poderes externos, mas apenas pela profundeza da bem-aventurança alcançada em meditação”.

160px-sriyukteswaryoganandaPor fim, como poderemos identificar um iluminado se não há sinais externos visíveis comprobatórios e definitivos? Jesus disse que pelos frutos é que se conhece a árvore. Mas também alertou contra os falsos profetas que iria, se possível, enganar até mesmo os eleitos. E hoje em dia, há muita mistificação e muitos Avatares fabricados. Nesta selva de enganação, exploração e ilusão, resta-nos sempre usar o bom-senso, a inteligência e a sabedoria para tentarmos identificar os verdadeiros iluminados pois eles, em geral, são reclusos e nunca anunciam quem verdadeiramente são- a não ser por uma missão muito específica ou para atender uma ordem superior. Basta lembrar de Babaji que vive em reclusão e anonimato há séculos ou até milênios . Se não fosse por Yogananda , o mundo não saberia de sua existência.

Mas, para que as pessoas querem encontrar iluminados? Seria para solucionar problemas e conflitos? Seria para realizar os desejos? Mas será que o iluminado pode lhe dar a paz que tanto procuras? O Iluminado nada pode fazer por você que você não possa fazer por si mesmo. Quantos pessoas não foram discípulas de Lahiri Mahasaya, Sri Yukteswar e Yogananda e quantos realmente alcançaram a iluminação? Quantas pessoas conviveram intimamente com Cristo, Buda e Krishnamurti e quantas foram realmente transformadas? Esses seres são pura luz e amor, mas se nossas portas estiverem fechadas de nada valerá encontrá-los. E eles não forçam a porta do seu coração. Eles batem, se você abrir eles entram com a luz dos seus ensinamentos. Essa luz é que liberta. Não o seguir, não o adorar, mas o viver realmente aquilo que eles ensinam.

Mas, o problema é que há tantas pessoas se autointitulando iluminados que fica muito difícil . Por isso que Krishnamurti foi tão insistente em sua guerra contra os gurus. Ele sabia que a Iluminação não depende dos gurus. Se fosse assim, coitados daqueles que não tem dinheiro para viajar para a Índia, o celeiro dos grandes “iluminados”. Independente disso, todos os mestres sempre foram unânimes em dizer : quando o discípulo está pronto o mestre aparece. Não há necessidade de encontrá-los fisicamente. Qualquer coisa pode lhe dá uma luz, um insight, quando você estiver pronto. Pode ser um livro, a vida, a natureza, a família, os amigos, um acontecimento… qualquer coisa.

Lembro-me que Buda não teve guru, Cristo não teve guru, Krishnamurti não teve guru, nem Ramana o teve . Isso não implica dizer, que não existam os verdadeiros mestres. Nem que não seja bom encontrá-los. Mas eles não são essenciais ao seu despertar. Eles não podem despertá-lo por você. Somente você pode fazer isso e ninguém mais. Abaixo descrevo algumas características que podem ajudar na identificação dos verdadeiros iluminados:

O Verdadeiro Iluminado :

· É desapegado, uma vez que ele não está escravizado ao ego, ao tempo, aos pensamentos auto-centrados e separatistas. Mas este desapego é interno e talvez não seja percebido através de sinais externos.

· Não se abala com ter ou não ter desejos biológicos ou carnais. O que ele não tem é o desejo mental ou psicológico. Pode viver uma vida completamente normal, pois sua liberdade é interior e ele não precisa prová-la pra ninguém.

· Pode ter discípulos ou não. Tanto faz . Depende muito de sua missão particular no mundo. Todavia, o verdadeiro iluminado não anda à caça de discípulos, não se angustia por não tê-los, nem anda por aí se autopromovendo.

· Pode manifestar ou não poderes (siddis) . Ele nem deseja tê-los, nem deseja não tê-los. Mas, quando se manifestam eles evitam os aplausos e as demonstrações públicas. Os poderes são vistos como manifestações de algo superior e por isso não se vangloriam, nem os usam pra fins pessoais.

· Vive completamente no aqui-agora, uma vez que o futuro, o presente e o passado são relatividades do mundo da mente condicionada, do qual o iluminado está liberto.

· Em geral , é humilde, e evita reconhecer a si mesmo como um sábio. Não tem arrogância por seu conhecimento, nem manifesta a detestável falsa humildade. Como dizia Lao Tsé: “o sábio cala, quem fala não sabe”. Vive em um eterno aprendizado, ensina baseado em sua própria experiência e percepção direta . Pode ser um orador – como Krishnamurti. Ou falar pouco, como Lahiri Mahasaya e Ramana Maharshi.

Para finalizar, penso que bom senso e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Você é o seu mestre. Cristo, a Verdade ou a Luz estão dentro de nós. E devemos nos guiar por ele sempre. Nem sempre os iluminados se tornam lideres espirituais ou gurus. Talvez, sua missão, naquele momento específico seja ficar anônimo. Podem atuar nas áreas da educação, medicina, física, arte… ou podem simplesmente ser seu vizinho ou colega de trabalho. Há um provérbio hindu que diz que apenas um médico pode reconhecer outro médico. Referindo-se ao fato de que apenas um iluminado pode reconhecer outro iluminado. Como um cego pode saber se o outro enxerga? Recuperando sua própria visão não? Sendo assim, o primeiro passo é iluminar-se, encontrar sua própria luz . Enxergar as coisas como elas são. Só então o indivíduo se torna capaz de perceber quem é Iluminado ou não. E então concluirá que essa questão não é assim, lá, tão importante!
Muito Obrigado!

Autor : ALSIBAR (inspirado)
http://alsibar.blosgpot.com
MSN: alsibar1@hotmail.com

Obs: Pode ser copiado integralmente, desde que, informe-se a fonte.
Referências:
(DK) – Diário de Krishnamurti – J. Krishnamurti ,Cultrix – São Paulo
(AI) – Autobiografia de um Iogue – Paramahansa Yogananda – Self Realization Fellowship, 2009.
Lives in the Shadow With J. Krishnamurti – Radha Sloss
Você pode baixar gratuitamente o livro em que Mary Lutiens comenta as revelações do livro de Radha Sloss em:

http://www.4shared.com/document/cXxZc_FS/Mary_Lutyens_-_Krishnamurti_an.htm


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